Não Estamos Sós

26 setembro 2005

Proveniente do blog do editor do Scarium Online, magazine brasileira de ficção científica, eis um comentário que reproduzo na íntegra e que ecoa em quase sincronicidade as preocupações de um post anterior do Antoloblogue:


Notas de sexta-feira

Nas notas de hoje, não pretendo divulgar as novidades da Scarium On Line, apenas fazer uma reflexão sobre a inércia da ficção científica brasileira. Mas que inércia é esta?

A bem da verdade, não é uma inércia no que diz respeito à produção, apesar desta ainda ser muito pouca e ficar limitado a alguns autores estrangeiros, na cola de filmes de sucesso, e uma meia dúzia de escritores nacionais que se arriscam a investir em produções independentes. A FC brasileira não é nada incipiente. A inércia está mais ligada à falta de ousadia, de experimentações e de um movimento literário sólido. Sintetizando, a falta de novas idéias.

Parece que os autores ainda continuam tentando apostar em fórmulas estrangeiras de sucesso e esquecem a nossa velha realidade literária.

Fica aqui um convite: quem se arrisca a mandar algo novo e ousado para publicarmos na Scarium?

O nosso convite mantém-se: até sexta-feira, continuamos a aguardar por esse grande conto original, inédito e totalmente nosso, da literatura fantástica em língua lusa que vai revolucionar o género e impulsionar-nos para o século XXII [1].

[1] fica aqui um esclarecimento, antes que o Jorge tenha de intervir para acautelar possíveis corações trepidantes, que o problema não é específico das submissões para a antologia, mas tem sido sintomático da FC luso-brasileira e de muita outra internacional não-saxónica. Contudo, tantas manifestações do sintoma não diminuem a gravidade da doença, e daí que continuemos a esperar pela cura ou pelo menos sinais de melhoria.

2 comentários:

Octavio disse...

Para depositar alguma lenha na fogueira, as palavras de Bráulio Tavares em sua coluna de hoje. Concordo com elas? Nem tanto, mas que são outra maneira de ver, talvez mais embasada, ah. lá isso são.

btavares13@terra.com.br    
A pureza do plágio sincero

    O escritor popular plagia de alma limpa. Se morresse depois de pingar o ponto final, subiria ao céu envolto em nuvens brancas e sinos dourados. Não é pecado aquilo que ele faz. Por "escritor popular" refiro-me aos franceses e ingleses que escreviam folhetins melodramáticos nos anos 1850, aos norte-americanos que escreviam contos de ficção científica nos "pulp magazines" dos anos 1930, nos redatores de fotonovelas femininas dos anos 1950, dos teledramaturgos da nossa TV nos anos 2000. Eles trabalham num meio onde a auto-referência é lei primordial, e onde o auto-canibalismo é a maneira mais rápida de não morrer de fome nem de falta de inspiração.
    Em "As Palavras", rememorando suas tentativas de escrever romances de aventuras aos 12 anos, Jean-Paul Sartre tem um parágrafo delicioso. Diz ele: "Pedi que me dessem um caderno, um vidro de tinta violeta, inscrevi na capa: Caderno de Romances. O primeiro que levei a cabo intitulei: Por Uma Borboleta. Um sábio, sua filha e um jovem explorador atlético subiam o curso do Amazonas à caça de uma preciosa borboleta. O argumento, as personagens, o detalhe das aventuras, o próprio título, eu tomara a uma história de quadrinhos que aparecera no trimestre precedente. Esse plágio deliberado me livrava de minhas últimas inquietações: tudo era forçosamente verdadeiro, visto que eu não inventava nada. Eu não ambicionava ser publicado, mas dera um jeito de ser impresso antecipadamente e não traçava uma só linha que meu modelo não caucionasse. Considerava-me eu um copista? Não. Mas sim autor original: eu retocava, remoçava; por exemplo, adotara o cuidado de trocar os nomes das personagens. Essas ligeiras alterações me autorizavam a confundir a memória e a imaginação".
    Nestas poucas linhas está sintetizado o nebuloso espírito autoral que envolve aqueles tipos de literatura popular. O escritor de "pulp fiction" vê os textos alheios como partes do mundo real; copiá-los lhe parece tão legítimo quanto copiar a vida. Ele tem a visão pura de um menino de 12 anos, para quem a emoção de escrever uma história é tão empolgante que o fato de estar copiando uma história já existente torna-se secundário. O estrato médio de qualquer literatura surge deste nosso impulso de reescrever ao nosso modo as histórias alheias que nos emocionaram para sempre numa quadra vulnerável de nossa vida. Vejam só quantos rubens-fonsecas, quantos daltons-trevisans, quantos paulos-francis abrilhantam hoje as vitrines de nossas livrarias.
    Todo mundo começa por copiar, como os alunos das escolas de Belas Artes; o copista de talento acaba às vezes por produzir um estilo próprio. E a "pulp fiction", o folhetim, a telenovela, são um ambiente em que esse regurgitamento permanente de temas e enredos é necessário para que o mecanismo continue rodando, e para que autores e público redescubram no "novo", com alívio, os traços de velhas histórias já conhecidas, das quais tinham saudade.

João Ventura disse...

"O nosso convite mantém-se: até sexta-feira, continuamos a aguardar por esse grande conto original, inédito e totalmente nosso, da literatura fantástica em língua lusa que vai revolucionar o género e impulsionar-nos para o século XXII"

Tipo, um D. Sebastião em forma de conto?
;)

JV