Os organizadores enquanto autores

14 novembro 2005

É sempre um pouco delicada a situação dos organizadores de uma antologia quando são também escritores e, portanto, interessados em ter trabalhos seus no produto final. É algo que abre espaço a críticas, umas vezes legítimas, outras nem tanto. Mas é algo muito comum: excepto quando a antologia se refere aos vencedores de um determinado prémio, ou quando procura reunir os melhores trabalhos de um certo período de tempo, os organizadores costumam incluir-se, seja cá nos países de língua portuguesa, seja lá fora. Bruce Sterling incluiu dois trabalhos seus, escritos em colaboração com outros autores, na antologia cyberpunk original, a Mirrorshades, Asimov metia quase sempre contos seus nas antologias que organizava, em Portugal António de Macedo foi presença assídua nas antologias da Simetria e o mesmo aconteceu à família Moreira quando tomou as rédeas do projecto, José Manuel Morais incluiu um conto seu n'O Atlântico tem Duas Margens, Octávio Aragão publicou trabalho seu na antologia Intempol, Gerson Lodi-Ribeiro fez o mesmo com as antologias editadas pela Ano-Luz, e muitos mais exemplos poderiam ser dados.

O organizador/autor tem algumas vantagens relativamente aos restantes autores: a mais importante é que sabe qual vai sendo o nível dos contos que vão chegando, e portanto sabe (se tiver sentido de auto-crítica) se os seus trabalhos estão no nível certo ou precisam de ser melhorados. É que não faz bem nenhum a coisa nenhuma (nem à carreira do organizador/autor, nem à antologia, nem à credibilidade do projecto) quando um organizador inclui numa antologia um conto que se destaca pela negativa. Mas também tem desvantagens, pelo menos quando faz as coisas como nós fizemos: se um organizador tem um conto pronto e aceitável e de repente alguém submete uma história muito semelhante, lá se vai o conto do organizador a caminho de outra edição qualquer porque deixa de ser viável incluí-lo na antologia. Com razão ou sem ela, seria demasiado fácil que surgissem acusações de plágio e seria muito difícil sacudi-las.

Nós decidimos que no fundamental os contos dos organizadores iriam competir com os outros em pé de igualdade, com o critério principal a ser a qualidade (e o secundário mais importante o equilíbrio da antologia), mas também fizemos um acordo tácito: quem avaliou o meu trabalho foi o Luís, quem avaliou o do Luís fui eu, e não estivemos com paninhos quentes. Como resultado, eu tive dois contos rejeitados e ao Luís aconteceu precisamente que um dos contos que nos chegou (por acaso é um dos aceites, mas até poderia não ter sido) era demasiado parecido com um dele, que acabou, por isso, por ficar de fora. E pensamos que aqueles que escolhemos não só se enquadram perfeitamente no global do volume como que este perderia sem eles.

Mas aqui o juiz último é o leitor. Ele dará a sua opinião quando ler as histórias, e é essa a opinião que, tudo somado, mais conta.

3 comentários:

Anónimo disse...

Das 12 últimas antologias luso-brasileiras (incluindo as 4 da Ano-Luz e as 5 da Simetria), sempre que o(s) organizador(es) também é(são) escritor(es), houve contos desse(s) organizador(es) em sua respectiva antologia. EMO, os contos dos organizadores nunca foram os melhores das antologias, tampouco jamais foram os piores. Em geral, ficaram na média, o que do ponto de vista ético creio constituir um padrão aceitável.

Gerson.

Jorge disse...

Exacto, Gerson.

E não é nada recente: O Romeu de Melo publicou três contos portugueses na antologia que organizou nos anos 60, Alguns dos Melhores Contos de Ficção Científica; dois eram dele. E em 1966 a antologia Terrestres e Estranhos, organizada por Lima Rodrigues e Robert Silverberg continha... um conto de Robert Silverberg e outro de Lima Rodrigues.

Luís Filipe Silva disse...

Apenas um comentário adicional sobre a antologia do Lima com o Silverberg... é que duvido que o Silverberg alguma vez tenha ouvido falar da mesma... :)